Desde os primórdios da experiência humana, o homem percebeu que nem todo pensamento, impulso ou voz interior lhe pertence inteiramente. Há algo que sopra de fora para dentro, que se instala, que fala com autoridade estranha. Todas as grandes tradições reconheceram essa realidade sutil: consciências não físicas que se aproximam, influenciam, inspiram ou tomam posse.
No Evangelho de Marcos (5, 1-20), Jesus expulsa “Legião” — “porque somos muitos” — de um homem possuído. O Novo Testamento inteiro trata a possessão demoníaca como fato corriqueiro, e Paulo adverte: “Não deis lugar ao diabo” (Efésios 4:27). Já o apócrifo Livro de Enoque (século III-I a.C.), aceito como canônico pelas igrejas etíope e eritreia, descreve os “Vigilantes” (anjos caídos) que descem, ensinam artes proibidas aos homens e geram os Nephilim, influenciando diretamente a mente humana.
Na tradição judaica, o Zohar (principal obra da Cabala, século XIII) fala dos “qlipot” — cascas ou entidades parasitas que se alimentam das falhas humanas e “cavalgam” a alma como um cavaleiro monta um cavalo. O rabino Isaac Luria (século XVI) ensinava que, quando a pessoa rompe a aliança, abre-se uma “fenda” por onde essas forças entram.
O Alcorão é explícito: os jinn são seres de fogo sem fumaça, invisíveis, capazes de sussurrar (waswasa) no peito dos homens (Sura 114:4-6; Sura 7:27). Maomé foi acusado de estar possuído por um jinn, ao que respondeu que seu revelador era o anjo Gabriel. No hadith de Muslim, o Profeta diz: “O demônio circula no corpo humano como o sangue”.
Na tradição hindu, os Upanishads já falavam de possessão por bhutas, pretas e pisachas (espíritos de mortos violentos ou insatisfeitos). O Atharva Veda contém hinos inteiros para expulsar esses “tomadores de corpo” (grahis). Patanjali, nos Yoga Sutras (III.37), avisa que os siddhis (poderes) podem atrair entidades que se apossam do yogi orgulhoso.
O budismo tibetano desenvolveu uma demonologia sofisticada. No Bardo Thödol (Livro Tibetano dos Mortos), entidades kármicas aparecem na mente do moribundo e podem “montar” quem ainda tem apegos. Padmasambhava, no Livro dos Preceitos de Guru Rinpoche, ensina rituais de expulsão de “oito classes de espíritos” que se alimentam de raiva, desejo ou medo.
Na umbanda e candomblé brasileiros, a possessão é institucionalizada: o orixá “baixa”, “incorpora”, “toma a cabeça” do médium. O caboclo das Sete Encruzilhadas (1918) dizia: “O espírito só trabalha no corpo quando o médium empresta o cérebro”.
No xamanismo siberiano e amazônico, o conceito é idêntico: espíritos aliados ou inimigos “sobem na cabeça” do pajé. No Espiritismo kardecista, Allan Kardec dedica os capítulos VIII e IX de O Livro dos Médiuns às obsessões simples, fascinação e subjugação, afirmando que “o perispírito do obsessor pode substituir temporariamente o do obsidiado”. Até mesmo na psicologia junguiana (que não é religião, mas dialoga com o arquétipo) Carl Jung escreveu em 1934, após experiências pessoais: “Os deuses tornaram-se doenças”.
Em carta a Freud, relata ter sentido “como se uma mão diabólica tomasse minha pena” ao escrever Sete Sermões aos Mortos.
Se considerarmos ainda, algumas tradições esotéricas menos exploradas, como o gnosticismo, o sufismo, o tantra e a quimbanda/umbanda. Elas enfatizam a ideia de consciências não físicas que “tomam” ou influenciam a mente e o corpo humano, muitas vezes como portais para o conhecimento ou o caos. Além disso, incluo vale citar algumas perspectivas científicas contemporâneas — não religiosas ou teológicas —, baseadas em estudos antropológicos, psicológicos e neurocientíficos que analisam o fenômeno da possessão como estados alterados de consciência (ASCs, na sigla em inglês), dissociação ou respostas culturais a traumas, sem endossar crenças espirituais. Essas abordagens veem a “possessão” como um mecanismo psicológico ou social adaptativo, frequentemente benéfico para o bem-estar mental.
Gnosticismo: Os Arcontes como Parasitas da Alma
Nos textos gnósticos da biblioteca de Nag Hammadi (séculos II-III d.C.), os arcontes — entidades demiúrgicas inferiores — são descritos como forças opressoras que invadem a mente humana para impedir a gnose (conhecimento divino). São raros por sua visão de possessão como controle cósmico sistemático.
Do Hypostasis dos Arcontes (ou A Realidade dos Governantes, Codex II): “Os arcontes disseram: ‘Vem, vamos agarrá-lo pela forma que modelamos, para que ele veja sua contraparte masculina […] e possamos capturá-lo com a forma que modelamos’ — sem entender a força de Deus, por causa de sua impotência. […] E os seres que possuíam apenas uma alma comeram [do fruto proibido].” Aqui, a possessão é uma tentativa falha de os arcontes “modelar” e controlar a alma humana, confundindo-a com matéria inferior. Essa citação rara ilustra os arcontes como “fracos” para capturar o espírito divino, mas potentes em iludir a mente via desejos carnais.
Do mesmo texto: “Norea virou-se com o poder de […] e em voz alta, gritou para o santo, o Deus da totalidade: ‘Resgata-me dos governantes da injustiça e salva-me de suas garras — imediatamente!'”. Norea, figura feminina arquetípica, resiste à possessão sexual e mental dos arcontes, simbolizando a rebelião gnóstica contra o “controle” das entidades.
Sufismo: Os Jinn como o Oculto Interno
No sufismo, especialmente em Ibn Arabi (século XII-XIII), os jinn não são meros demônios, mas aspectos “ocultos” (jinn deriva de “oculto”) da psique humana ou realidades sutis que sussurram e possuem via desejos não purificados. São raras por reinterpretarem o Alcorão como alegoria da mente dividida.
De Futuhat al-Makkiyya (As Revelações de Meca, Capítulo 9): “Quanto ao versículo: ‘Não criei os humanos (ins) e os jinn exceto para me adorarem’, é como se Deus quisesse dizer: ‘Não criei os jinn’, i.e., a parte oculta dos seres humanos, ‘e o homem’, i.e., a parte aparente dos seres humanos, ‘exceto para me adorarem’ externamente (em atos) e internamente (purificando suas intenções)”. Aqui, os jinn representam o “interior oculto” que pode possuir o ego se não alinhado à adoração divina, fundindo o sutil ao físico. Essa exegese rara transforma possessão em metáfora para a luta interna entre zahir (exterior) e batin (oculto).
Do mesmo capítulo: “De acordo com a haqiqa [realidade transcendental], o interior do homem é jinn”. Ibn Arabi vê os jinn como o “lado velado” da alma, capaz de “possuir” via impulsos inconscientes, ecoando o hadith profético de que o demônio “circula no corpo como o sangue”, mas elevado a ontologia sufista.
Tantra: Āveśa como Fusão com Devas e Bhutas
Nos tantras śaivitas (séculos V-XI), āveśa (“entrada” ou “possessão”) é uma técnica deliberada de fusão com devas (deuses) ou bhutas (espíritos ancestrais ou elementais), mas pode virar aflição se involuntária. Raros por seu foco em possessão como siddhi (poder) liberador, não punitivo.
Do Netra Tantra (século IX, Capítulo 19): “Śiva explica que todas essas entidades — matrs [mães divinas], bhūtas [espíritos] e grahas [seizeadores] — foram originalmente criadas por ele para derrotar os Daityas que se opunham aos deuses. […] Os bhūtas entram no corpo como ventos de tempestade, persistindo para capturar a imagem [divina] que lhes apareceu nas águas”. Os bhūtas “possuem” via forças elementais, mas Śiva os subordina; possessão involuntária é “seizure” (graha), tratada como doença ayurvédica (bhūtavidyā). Essa taxonomia rara classifica bhūtas como “criados para guerra cósmica”, invadindo a mente como “ventos” caóticos.
De textos proto-tantras como o Bhūta Tantra (século VIII): “A possessão por bhūtas é unmāda [loucura] de origem divina, entrando de fora […] caracterizada como aflição que precisa ser curada via bhūtavidyā [ciência dos espíritos]”. Aqui, āveśa é medicalizado: bhūtas “entram” via traumas, mas rituais os transformam em aliados devicos.
Quimbanda e Umbanda: Incorporação como Diálogo com o Marginalizado
Na quimbanda (século XX, derivada da umbanda), a incorporação é pragmática: entidades como Exus e Pombagiras “baixam” para justiça retributiva ou cura urbana. Raras por sua ênfase em espíritos “de esquerda” (caóticos) como empoderadores dos oprimidos.
Do Caboclo das Sete Encruzilhadas (entidade fundadora da Umbanda, incorporada por Zélio de Moraes em 1908): “O espírito só trabalha no corpo quando o médium empresta o cérebro”. Essa frase icônica, rara em relatos primários, descreve incorporação como “empréstimo” consensual, onde o Exu usa a mente para “trabalhar” encruzilhadas (limiares da vida). Na quimbanda, isso se estende a Exus “pagãos” que incorporam para “caos necessário”.
De relatos etnográficos sobre Quimbanda (meados do século XX): “Exus, referidos como ‘espíritos da esquerda’, não são puramente maus. Em vez disso, são mais humanos em suas qualidades e compartilham fraquezas humanas. […] A possessão total pode ocorrer mais tarde, envolvendo os espíritos sendo ‘sentados’ dentro do indivíduo através de possessão espiritual plena”. Aqui, incorporação é “sentar o espírito” no corpo, fundindo o marginal (Exu) ao humano para lidar com “assuntos materiais” versus o espiritual da umbanda.
Perspectivas Científicas: Dissociação, Trauma e ASCs
Estudos modernos tratam possessão como fenômeno neuropsicológico e cultural, sem recorrer ao sobrenatural. Focam em ASCs como respostas adaptativas a estresse, com benefícios terapêuticos comprovados.
De “A Fragmented Mind: Altered States of Consciousness and Spirit Possession” (2024, PMC): “ASCs fornecem uma janela para entender a consciência humana e a conexão mente-corpo. A consciência não é apenas um fenômeno biológico, mas também moldada por cultura, contextos sociais e crenças. […] Possessões espirituais são um exemplo relevante de integração culturalmente influenciada de ASCs, investigadas do ponto de vista antropológico, psicológico e médico”. Essa análise vê possessão como “ferramenta para exorcizar trauma individual ou abordar medos comunitários”, integrando fisiologia e sociocultura.
De “More Things in Heaven and Earth: Spirit Possession, Mental Disorder, and Intentionality” (2020, PMC): “A possessão espiritual — ou como chamarei, a ‘postura do espírito’ — é uma estratégia intencional que visa prever e explicar comportamento atribuindo a um agente (o espírito) crenças e desejos, mas só é acionada quando os estados mentais e atividade do sujeito (a pessoa) falham em distinções normativas específicas”. Trata possessão como variação da “postura intencional” (teoria de Dennett), ativada em falhas de agency, ligada a trauma ou dissociação.
De “The mind possessed: well-being, personality, and cognitive characteristics of individuals regularly experiencing religious possession” (2022, PMC): “O nível de significado atribuído à possessão e a fusão com a entidade espiritual correlacionaram-se fortemente com a maioria das dimensões de qualidade de vida, e negativamente com ansiedade; além disso, o nível de significado predizia menor ansiedade”. Em umbanda brasileira, possessão voluntária melhora qualidade de vida, reduzindo ansiedade via “fusão” — um estado dissociativo saudável, não patológico.
De “Traumatic Experience and Somatoform Dissociation Among Spirit Possession Practitioners” (2016, PMC): “A noção de que a identidade ordinária de uma pessoa pode ser substituída por uma diferente, geralmente de uma entidade espiritual, é comumente referida como possessão espiritual. Tipicamente resulta em mudanças notáveis na consciência e comportamento, seguidas de amnésia reportada para o evento”. Liga possessão a trauma, mas nota que em contextos rituais (ex.: República Dominicana), é adaptativa, não disfuncional, per DSM-5 (como transtorno dissociativo de identidade, se patológico).
A ciência olha para dentro
A ciência moderna não aceita entidades invisíveis, mas reconhece o fenômeno com outro nome: estados alterados de consciência, dissociação somatoforme, transe possessivo. O que as tradições chamam de “incorporação” ou “obsessão”, a antropologia médica chama de “postura intencional secundária” ou “idioma de angústia”.
Estudos longitudinais com médiuns brasileiros mostram que a possessão voluntária e ritualizada correlaciona-se fortemente com menor ansiedade, maior qualidade de vida e maior senso de significado (Negrelli et al., 2022). Em neuroimagem funcional, o transe de possessão apresenta redução drástica da atividade no lobo parietal superior — a região responsável pela sensação de agência (“eu faço”) — e hiperativação do giro temporal superior, responsável por atribuir intenções a agentes externos. Em resumo: o cérebro desliga temporariamente o “eu” e liga o “outro”.
A dissociação, outrora vista apenas como patologia (transtorno dissociativo de identidade), revela-se, em contextos culturais protegidos, uma capacidade adaptativa: o indivíduo desloca o sofrimento para uma entidade externa, permitindo que a comunidade dialogue com ele e o cure (Seligman & Kirmayer, 2008; Delmonte et al., 2016).
A mesma praia, nomes diferentes
O que muda entre as tradições não é o fenômeno, mas o protocolo.
Uns chamam o passageiro de “demônio” e tentam expulsá-lo com exorcismo.
Outros chamam-no de “orixá”, “loa” ou “deva” e negociam um contrato de convivência.
Outros ainda, como os gnósticos e certos tântricos, veem-no como arconte ou bhūta a ser subjugado e transformado em aliado.
A ciência chama-o de “estado alterado” e tenta medi-lo com eletrodos, sem perguntar se ele existe ou não — apenas como funciona.
“Porque não lutamos contra carne e sangue, mas contra principados e potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais.” (Efésios 6:12)
Talvez a única diferença real seja a escolha do nome que damos ao passageiro — e a decisão de mandá-lo embora ou convidá-lo a ficar.
A mente permanece uma praia aberta. A maré sobe e desce, trazendo conchas, ossos, pérolas e monstros. Cabe a nós aprender a ler as pegadas na areia antes de decidir se são nossas ou de alguém que nunca precisou de pés para caminhar.


